sexta-feira, 6 de março de 2009

Pomba gira

A entidade espiritual conhecida como Pombagira, representando o feminino, é causadora de espanto e incômodo e tem motivado diversos estudos que discutem a sua construção e funções, direcionando a importância do objeto para leituras de gênero. Ela se apresenta como um espírito de mulher que em algum tempo e cultura esteve no mundo e de alguma forma sofreu a opressão masculina. É comum serem apresentadas na condição de esposas machucadas, traídas ou violentadas, de filhas oprimidas, martirizadas ou de mulheres que ousaram romper, abandonando a família, e foram viver a outra opção (única) possível fora do lar: a prostituição.

Sua manifestação é ligada às praticas religiosas afro-brasileiras, compreendida pelo Candomblé e Umbanda. No entanto, sua figura tem alcance muito maior, podendo ser inserida ou adaptada em diversas formas culturais. É referenciada como ligada à sexualidade, viés por onde ela disputa poder com o homem. Sobre ela existe uma pesada carga de representar o mal e a necessidade de afastamento e controle. Esse controle é exercido através do preconceito e da crítica, apresentando a sua figura como causadora de distúrbios emocionais e morais que faz o mal a quem com ela estabelece relações.

Os trabalhos sobre a Pombagira apresentam-na como causadora de perplexidade e ambiguidade, dual e personagem de moral duvidosa. É classificada pelos detratores da religiosidade afro-brasileira como entidade do mal, causadora de distúrbios em pessoas, principalmente mulheres, nas quais é preciso eliminar a Pombagira, excluindo também comportamentos considerados fora dos padrões estabelecidos, como por exemplo, e principalmente, uma sexualidade aflorada.

Não há como não associar esse mal atribuído à Pombagira à sexualidade. O principal papel dela é o de mediadora das relações homem/mulher, atrelado às realizações materiais, tendo como ponte a estabilidade familiar. Contudo, não está ligada à maternidade e não prega a submissão da mulher, e sim o uso de armas femininas, principalmente sedução e malícia, como forma de dominar o homem. Ela é referenciada como a mãe, porém mãe protetora, aquela que cuida, sem necessariamente procriar. Ela cuida das questões materiais, ligadas aos problemas do cotidiano das pessoas. Isso se percebe na fala da entrevistada Rita, quando diz que na sua relação direta com a sua Pombagira a concebe como mãe duas vezes: foi ela quem lhe deu casa, a proteção, o sustento familiar, o sucesso e o dom de perceber as coisas para poder ajudar outras pessoas.

Percebemos uma grande dificuldade para definir ou entender a Pombagira em face dos adjetivos a ela conferidos. Contudo, supomos que o preconceito para com ela está relacionado a sua feminilidade fora dos padrões institucionalizados. A forma com que a Pombagira é apresentada desnaturaliza as construções sobre o feminino. A compreensão precisa ser feita buscando ultrapassar as construções cristalizadas. Ou seja, ela é o feminino, traz nas roupas, no discurso o papel conferido socialmente às mulheres. No entanto, toma emprestado elementos masculinos, como fumar, beber, seduzir, por onde busca exercer o poder.

Apreender os significados da Pombagira é um exercício de desconstrução dos saberes, conforme diz Tânia Sampaio, ao nos alertar para a problemática de certas leituras de cruzamento de gênero e religião. A Pombagira se apresenta aparentando o discurso institucionalizado e genereficado da cultura patriarcal. No entanto, funciona como uma brecha nesse saber cristalizado, agindo como desconstrutora. Ela questiona a condição subalterna das mulheres, fornecendo meios para que as mesmas conquistem seus homens provedores, e que tenham meios de enfrentá-los, causando algumas transformações que, ao mesmo tempo que parece subverter, reforça os papéis instituídos.

Quanto à perspectiva da pesquisa da apreensão das representações, conforme Pedrinho Guareschi, essa possibilidade se dá em diversos espaços: na casa, na rua, nas instituições, nos diversos espaços sociais e nos espaços de resistência. Entendemos a manifestação da Pombagira como um espaço de resistência.

A forma com que a Pombagira se apresenta parece ter uma grande dose de resistência tanto nas relações de gênero como nas culturais, apresentando-se como um espírito de mulher que em algum lugar num tempo passado viveu o seu drama pessoal na condição de mulher dominada ou subversiva e que por meio da manifestação espiritual provocada pelo estado de transe, mantendo tradições e abrindo caminhos, se apresenta como sendo uma mulher que supera a dicotomia entre o espaço público e o privado.

Ao estabelecermos as perguntas, tivemos em mente a apreensão das funções religiosas para acessarmos as funções no cotidiano das pessoas que se relacionam com a Pombagira. Uma das perguntas feita a todas as entrevistadas buscava uma definição da Pombagira e de como ela é construída para as pessoas que interagem com ela. Buscando entender mais essa figura controvertida, causadora de controvérsias, as nossas perguntas dirigidas às entrevistadas buscaram aproximar-se do objeto, tentando apreender as experiências individuais no processo de construção, caracterização e funções da Pombagira, assim como as suas representações. Para Fátima:
As Pombagiras foram as grandes damas de um passado muito atrás, mas muito atrás mesmo, e hoje elas estão cumprindo uma missão delas, resgatando alguma coisa que elas deixaram de fazer. Então, pra nós, elas representam o lado feminino, sexo feminino, entre o exu e a pombagira. Lado bem sexy. Elas são vaidosas, gostam de perfumes, gostam de coisas boas, e como falei antes, elas não trabalham somente para o mal, negativo. A cabeça da gente, do cliente, é que pede, às vezes, pede o negativo.

Assim, a Pombagira traz em sua formação a preservação da cultura das mulheres do passado, dos objetos que lhe representam, como o perfume, o lado bem feminino, sexy. A definição de Fátima nos remete ao trabalho de Marlyse Meyer, que traça o caminho percorrido pela cortesã ibérica Maria Del Padilla e o encontro com a religiosidade afro, formando a Pombagira tal como se apresenta hoje. Maria Del Padilla traz as características de mulher sedutora, feiticeira, manipuladora de magias para casos de amor, venerada como auxiliadora nesses casos. Tudo isso está presente na figura da Pombagira. Essa definição, pela forma com que algumas Pombagiras se apresentam nos rituais, com roupas de princesas, de rainhas, nos parece ser uma grande memória coletivamente conservada, nem sempre de forma consciente.

Fátima tem duas formas para definir a Pombagira. Na primeira, como dama do passado, o que seria uma definição histórica, provavelmente apreendida de fora para dentro. Na segunda definição, coloca a emoção, e nesse momento é como se ela e a sua Pombagira, ou seja, a entidade espiritual que tem como sua, se fundissem numa só pessoa. Ela diz:
Ela é maravilhosa, e por isso, como eu lhe disse, agora juntando, tem gente que diz que Pombagira só faz o mal, é prostituta, isso aquilo, representa a prostituição. Nada disso. Ela é maravilhosa, feiticeira, ela passa aquela energia, assim, faz a mulherada se sentir mais mulher, mais sexy. É isso. Eu gosto, que meus olhos chega brilha, né?
No mesmo sentido, com definição muito próxima, também fazendo referência ao fato de ser a Pombagira comparada a uma prostituta, Maria Otilia diz que:
A Pombagira é uma mulher como nós, que gosta de tudo que é bom. E acontece de muitas pessoas acharem que a Pombagira é uma prostituta, uma mulher que só trabalha para o mal. Mas ela ajuda muita gente, depende da formação espiritual de cada médium.
É importante observar que tanto Fátima como Maria Otilia falam da incorporação da Pombagira, mas também da apropriação dessa incorporação, observando que quem pede as coisas negativas são as pessoas que interagem com ela. Assim, elas nos sinalizam duas formas de incorporação da Pombagira. A “incorporação” do espírito, e a incorporação no sentido “bourdiano”, quando o mundo estruturado interfere no indivíduo.A entrevistada Rita tem uma definição marcada por elementos fortes, que apresentam a ambigüidade e a dualidade tão propalada na figura da Pombagira, ao dizer que:
Então, a Pombagira é isso, é o desejo da mulher. Os desejos escondidos em cada mulher. Ela é carne, ela é matéria. Ela não é um espírito incorporativo; ela é matéria pura [...] [...] Pombagira é os seus verdadeiros desejos, a coisa mais oculta que está dentro de toda mulher. Toda mulher tem desejos ocultos. Entendo, então, que como a sociedade ou mesmo as religiões controlou muito assim, elas se retraem, se escondem dentro delas mesmas. Aí vem o não saber nem mesmo que elas gostam realmente. Tá entendendo? É preciso que ela venha, que ela esteja nos terreiros. Elas são escravas do santos das cabeças e vivem ocultas, elas vivem escondidas.

A fala de Rita apresenta uma questão muito importante. É na sua fala que encontramos, na voz da Pombagira, essa outridade da mulher. Ela fala que há dentro de cada mulher uma outra mulher escondida pelas imposições sociais e religiosas. Essa outra mulher, ou essa metade escondida, aflora por meio da manifestação da Pombagira. Esse algo escondido na fala de Rita é a verdade escondida que a mulher não conhece e que a Pombagira coloca à mostra, que, conforme a entrevistada, libera, abre a cabeça das mulheres para que elas possam ser mais felizes.

Outra importante questão colocada por Rita é referente à condição da mulher, de ter que colocar algo pra fora que vem como uma explosão, algo do qual se perde o controle e que é representado por um poder contido, controlado. O poder que a Pombagira traz por meio da sua incorporação é um poder que a mulher não conhece, não controla e que Rita diz ser o que é proibido pela sociedade e pela religião. Ela nos remete a todos os controles institucionalizados da justiça, da igreja, da medicina, dos corpos submetidos sobre os quais Michel Foucault escreve.Principalmente o corpo da mulher duplamente submetido, pelas instituições e pelos discursos que perpassam a sexualidade.

A fala de Rita também nos remete ao seu aprendizado com o insucesso no casamento. A experiência ligada a sua vida, sexualidade e relacionamento afetivo, momento importante de transformação, onde é inserida a sua Pombagira como sendo quem a ajudou, quem a fez se descobrir como capaz e independente. Nesse momento, para Rita, a Pombagira se materializa na sua vida através de um momento de transformação, e que transita tanto pelo material como pelo simbólico. Da Pombagira ela diz que recebeu a casa onde vive, aprendeu a ganhar a vida, além do dom espiritual com o qual acredita ajudar as pessoas. Refere-se à sua Pombagira, ou seja, à entidade espiritual com a qual entra em transe, como parte integrante da sua vida cotidiana.
Muita coisa. Sofri muito com marido, e ela veio nesse momento da minha vida. Ela me deu casa, que eu não tinha; ela me ajudou a sustentar os meus filhos, me deu esse dom que não sei de onde vem, de perceber as coisas, de ajudar outras pessoas a se compreenderem também. Devo tudo a ela. Muita coisa boa ela fez por mim.
Quanto às observações de Rita, de não ser a Pombagira espírito e sim matéria, causou estranheza. Questionada sobre a afirmação, ela completa:
Porque acho que médium nenhum incorpora totalmente. Porque a gente não agüentaria tanta força, tanto poder encima da gente, e a gira, principalmente porque ela vem arrastando assim, fogo. De repente ela vem no meio de uma depressão, no meio de uma raiva que você não consegue colocar pra fora, ela explode você, dá um choque na mente, um desmaio, uma crise emocional, mas que é preciso. É preciso que elas venham, que estejam nos terreiros. Elas são escravas dos santos das cabeças e vivem ocultas, elas vivem escondidas. [17]

A origem da Pombagira foi encontrada, tanto na fala de Fátima quanto de Maria Otilia e Rita, na condição dela como escrava de santo, da sua africanidade. Mas Rita fala de outra mulher, que vive escondida, que sofre, que tem uma depressão que ao explodir expelirá fogo, elemento masculino. A Pombagira, para Rita, pode vir num momento de raiva, de depressão e isso nos indica que ela vem em momentos limites, em que a mulher vaza pelas frestas da opressão.

É importante pensarmos nesse transbordamento, nessa crise “histérica”, para novamente nos remetermos às observações de Michel Foucault sobre a sexualidade e sobre os mecanismos de controle do corpo mantidos pelas instituições. As mentiras institucionalizadas sofrem nesse momento a perda do poder, vez que um poder maior vindo do sagrado lhe confere legitimidade.

Quanto às funções da Pombagira, o seu papel dentro do ritual religioso teve respostas também, digamos, harmoniosas. Não parece haver conflito com relação a isso. Para Maria Otilia a “Pombagira é uma espécie de anjo da guarda, sempre bem próxima da pessoa que é bom, mas dependendo da pessoa, da cabeça da pessoa, pode fazer o mal.” Fátima explica que:
Dentro de qualquer parte espírita, umbanda, candomblé, etc, ela não deixa de representar uma defesa pra gente, que todos nos sabemos que temos um lado esquerdo e um direito [...] [...] do lado esquerdo estão eles são a defensiva pra gente. Eles nos defendem e nos livram de demandas, dessas coisas negativas que podem vir pra cima de nós. É como se eles fossem um escudo, desde que você ande direito com eles, cuide deles. Cuidar como? Acender a vela, conversar, tratar bem. Como falei anteriormente, eles também tem o lado deles brincalhão, eles gostam de brincar com a gente. Então, a função da Pombagira é fazer trabalho para cliente, a defesa da casa... orienta, ela orienta. Dependendo do que as pessoas pedem, elas ajudam, e desde que esteja ao alcance, porque tudo tem limites. Porque depois delas vem nossos orixás que elas são tipo umas escravas, então, eles são limitados. Porque tem gente que pensa assim: Pombagira vai fazer tudo que eu quero. Não é assim não. Elas vão fazer aquilo que você merecer e estiver ao alcance delas de fazer. Não é mágica não.
Mãe Rita observou que:
Eu entendo que ela vem para abrir tudo que está oculto, tudo que está escondido, tudo que está guardado. Ela vem para colocar pra fora. Esse é o trabalho dela. O trabalho dela é não deixar a sujeira em canto nenhum. Ela vai mostrando, ela sai rasgando tudo mesmo, onde estiver oculto, ela vai mostrando. Eu chamo ela de uma entidade até justa, não deixa de ser, porque ela manifesta toda verdade. Ela manifesta a vida, e a própria fertilidade, e eu acredito que é assim. Ela é luz que vem abrindo tudo.

Rita ainda observou que a Pombagira tem como função principal defender a mulher da opressão do homem, frisando principalmente as mais machucadas, observando ainda o fato de que grande parte das pessoas que procuram por sua Pombagira são mulheres maltratadas, largadas pelos maridos. Define a Pombagira como luz que ilumina, abre, manifesta a verdade, verdade essa oculta pela religião e pela sociedade.

Todas as entrevistadas frisam que a função da Pombagira é de guardiã, escudo, protetora, enfim, um anjo da guarda. Um anjo que protege e ataca. Que é bom e mal, dependendo da situação, ou da pessoa que interage com a Pombagira, tanto na condição de médium como de cliente. Também aparece como função a ajuda nas finanças, no emprego, e no caso da Pombagira de Fátima, gosta de fazer trabalhos para ajudar quem tem problemas com a justiça.

Fátima, ao definir a Pombagira, disse que a mesma representa o lado bem feminino e sexy, e que a característica dela é a vaidade. Seus objetos são os perfumes, as coisas boas, que a mesma é feiticeira e faz a mulherada se sentir mais mulher. Maria Otilia também nos apresenta como elementos representativos da Pombagira: os perfumes, jóias, bijuterias, vinhos, cigarro, maçãs vermelhas e uvas. Observamos que os elementos se repetem ou se cruzam. As duas mencionam perfume, que é elemento de sedução. A maçã é ligada à condição de ser feiticeira, cruzando um elemento que pode pertencer à outra. Maria Otilia disse que a Pombagira é uma mulher como todas. Rita apresentou a sua Pombagira ambígua, dual, matéria pura, mas que vive escondida dentro de cada mulher. No dizer de Rita, ela é a outridade da mulher, uma voz que fala entre a religião e a revolução, e é a voz das paixões e visões, que é de outro mundo, antiga, mas do hoje também.

Na fala das entrevistadas, a outridade da Pombagira se faz presente. Ela é um ser espiritual que interfere de forma material na vida das pessoas que interagem com ela. Ela incorpora, no sentido espiritual, com a manifestação do espírito por meio do transe, mas também permite que se faça uso dela como um símbolo de poder. Essa manifestação traz o que, para Rita, a mulher não conhece, e que ela observa como sabedoria e força.

Fátima, Otilia e Rita entendem que Pombagira está dentro e fora, que pode ser incorporada e que incorpora, e assim, fora do espaço ritual da manifestação da Pombagira, ela se faz presente na vida cotidiana das mulheres como uma personalidade oculta. Essa personalidade oculta é movida pela Pombagira, mas de forma interativa, onde a mulher busca nela a força, a coragem, colocando isso na sua vida diária, causando transformações na sua forma de viver. Para isso, a mulher toma para si os elementos de poder da Pombagira, o perfume, as flores, a bebida, as jóias ou bijuterias, ela recupera o lado sexy, acreditando-se dona de uma força vinda do sobrenatural que lhe possibilita enfrentar a condição subalterna socialmente imposta.

Reforçando o que nos diz Bourdieu,de que o mundo social é incorporado pelo mundo religioso, nos remetemos novamente a Stefania Capone , quando diz que por intermédio dos discursos da Pombagira os poderes religiosos, social, e sexual são constantemente questionados e que:
A figura da Pombagira se torna, com freqüência, o pivô de dramas conjugais, quando as relações entre os sexos são diretamente questionadas. Graças à fala do espírito, as mulheres-médiuns contestam a supremacia dos homens e chegam a impor suas próprias condições e renegociar sua posição subalterna.

Nossas informantes nos deram essa sinalização, a do papel da Pombagira como instrumento de contestação. A Pombagira é mulher e representa o poder. Poder enquanto feiticeira, guardiã, protetora, e, principalmente, mantenedora. Conforme a entrevistada Fátima, a sua Pombagira é quem sustenta a sua casa, o seu terreiro, e é quem faz a sua segurança pessoal e financeira. Assim, a Pombagira não é apenas uma entidade que incorpora nos terreiros para atender clientes, ou para causar estranheza. Ela incorpora no cotidiano das pessoas que interagem com a mesma, fazendo parte das suas vidas.

Em todos os casos a Pombagira é o centro para essas mulheres, e que de uma forma muito especial, pelos caminhos do sobrenatural, do espiritual, atuam no mundo material em um campo de conflito, que é a tensão entre os sexos. Sua mais variada forma de se manifestar nos permite dizer que existe uma variedade de Pombagiras, o que é perceptível pela forma com que se apresenta no espaço ritual. Trazem as diferenças nas roupas, nos nomes. Como nossas entrevistadas nos disseram, cada Pombagira tem suas particularidades. Essa variedade das Pombagiras quanto à forma com que se apresentam ou as suas especificidades nos remetem às observações de Sandra Harding de que não existem mulheres genéricas. A Pombagira também não é genérica e precisa ser compreendida através da desconstrução dos nossos paradigmas, que Tânia Sampaio prescreve como necessidade para uma interlocução. Embora ela apresente características universalizantes da mulher atrelada ao homem, sua imagem aparente é o avesso da mulher que poderíamos chamar de “formatada” para ser a mulher ideal. Ela é transgressora, porque dentro do processo de luta e busca de ocupação de espaços pelas mulheres os caminhos foram os mais diversos, porque para ocupar esses espaços foi necessário o uso de armas muito variadas, como a sedução, a dissimulação, e o enfrentamento.

A Pombagira manifesta-se trazendo características performáticas nos seus discursos. Conforme Michel Foucault, o sexo no século XIX é tratado com pose como forma de desafiar o estabelecido, subversivamente, mas que está associado a nossa vontade de saber, a nossa necessidade de conhecimento. A Pombagira se apresenta subversiva, transgressora, e apresenta a sexualidade como fator importante do seu poder, e ainda inverte os papeis estabelecidos, sendo ela a seduzir, papel instituído como masculino. Os papéis instituídos sofrem algumas alterações por um viés sutil, que passam pela sexualidade, onde elementos de poderes de sedução masculina se misturam com os femininos, como cigarro, bebida, perfume, flores. O ponto principal de atuação da manifestação passa, conforme Pierre Bourdieu, por onde está incorporada de forma inconsciente a nossa percepção.

O que também foi possível perceber, com a realização dessas três entrevistas, é que a função da Pombagira dentro das práticas religiosas é muito ampla. Enquanto feminino do exu, ela, assim como ele, tem a função de “escrava”, aquela que faz serviços e está sob o comando de superior, no caso os orixás. É também a proteção, o escudo, e isso se apresentou na fala de todas as sacerdotisas entrevistadas. Assim, a Pombagira é definida como uma entidade vinculada aos cultos africanos, cuja função é a de fazer o trabalho pesado. Sua função é a de escrava de orixá, apresentando-se assim a multiplicidade hierárquica das divindades da religiosidade africana. Nesse sentido, observa Stefania Capone:
Assim, ainda que a maioria dos médiuns afirme que a Pombagira é uma criação tipicamente brasileira, ela pode ser reinterpretada e legitimada como a “escrava” de uma divindade, isto é, como um exu africano.

O encontro com o elemento da cultura afro, feminino de exu, também com atribuições de cuidar dos assuntos materiais, como trabalho, sucesso profissional e da sexualidade, facilitou a assimilação e junção, haja vista que essas atribuições de mulher de negócios e protetora familiar eram comuns às mulheres africanas, e cujas práticas de feitiçaria estavam ligadas à proteção dos filhos. Desta forma, a ligação ou a origem da Pombagira parece ficar explicada pela sua origem africana e pelo seu cruzamento com a religiosidade européia, resultando numa figura sincrética. No entanto, pela sua grande diversidade, seja na forma com que se apresenta, com vestimentas de vários povos e culturas, trazendo histórias pessoais das suas vidas quando viveram na terra, parece ultrapassar o sincretismo para nos apresentar uma variedade dentro do fenômeno.

Sua função é de defesa e de ataque, se preciso for, mas essa definição não basta. Vamos acabar percebendo que a Pombagira apresenta-se nas formas mais variadas, ultrapassando o sincretismo, ou a dualidade. A Pombagira não cabe apenas nessa afirmação, de que é sincrética, de que é dual e ambígua. Ela apresenta-se nas mais variadas formas, podendo ser loira ou morena, velha ou menina, ter olhos azuis ou ser negra. Pode ser cigana do oriente, ou até vir da Índia ou da Espanha. Sua origem da religiosidade africana com a cultura européia é pouca quando temos que explicar o que são as ciganas, o povo do oriente, as baianas, as Princesas de Jurema, etc.

Isso nos remete ao conceito de hibridismo de Nestor Canclini, que pode traduzir mestiçagem, sincretismo, fusão, para designar misturas particulares. A Pombagira, nesse sentido, parece se apresentar como um ser híbrido. Sua figura, que teoricamente seria da fusão da religiosidade afro com a cultura européia, ultrapassa essa explicação quando se torna múltipla em formas e características, tornando-se difícil a sua apreensão e definição. Sua construção é coletiva, mas sua assimilação é individual. Cada uma das entrevistadas tem a sua maneira muito especial de se relacionar com a Pombagira, onde aparece aquilo que nos permite dizer, com Canclini, que a Pombagira é uma figura de misturas particulares.

Se nossa intenção era a de perceber se na manifestação da Pombagira estavam presentes os discursos e as tensões de gênero, isso ficou claro. Também tínhamos hipóteses quanto as suas funções e características, e as nossas três entrevistadas pontuam uma diversidade, mas que possuem o mesmo fio condutor, o da feminilidade e da Pombagira como instrumento da mulher na luta pelo e contra o homem. O ponto comum em todas elas é a definição quanto à característica de escrava do santo apresentada pelas três entrevistadas. Outro ponto interessante que aflora na fala de Otilia é a definição de que “a Pombagira é uma mulher como nós”; na fala de Rita, “a Pombagira é a coisa oculta que está dentro de toda mulher”; para Fátima, “ela representa assim o lado bem feminino”. Assim, a Pombagira, que é algo oculto dentro das mulheres, é uma mulher igual a todas às mulheres, é o lado bem feminino. Elas gostam de coisas boas, como perfumes, batom e ajudam as mulheres na vida amorosa e financeira.

A fala de Rita diz que a Pombagira não é espírito incorporativo, mas todo o tempo foi marcado pelo sobrenatural, quando ela indicou a presença da Pombagira na entrevista, nos informando que a mesma se fazia presente. Disse também que a Pombagira é matéria pura, mas é coisa oculta. Ela fala ainda que a Pombagira manifesta a fertilidade, fala da manifestação para mostrar coisas escondidas, mostrar a verdade, e essa verdade está ligada a condição subalterna da mulher quando diz que suas clientes são as mulheres maltratadas e machucadas pelos maridos. Ela é ainda o que Fátima, Rita e Maria Otilia descrevem: Um ser feminino, que trabalha para as mulheres. Nesse sentido lembramos uma das falas da Pombagira durante os rituais. Elas dizem: “Eu gosto de home, mas trabalho é pras muié”. Isso indica que a Pombagira é uma mulher que luta a favor da causa das mulheres, muito embora esteja na sua palavra aquilo que faz parte do pensamento cristalizado, gostar de homem, lutar para ter um. Mas ela ensina às mulheres a se manterem, uma vez que ela é mulher e é mantenedora dessas mulheres.

Em “Negras, Mulheres e Mães”, Terezinha Bernardotraz importantes observações sobre o processo da construção do feminismo no Brasil, especificamente na cidade de Salvador, tendo como contraponto a religiosidade afro-brasileira e a presença das mulheres baianas no espaço religioso e público. Conforme Terezinha Bernardo, esse é o momento em que as idéias feministas representadas pelas mulheres conseguem abrir brechas para o movimento feminista. As observações de Terezinha Bernardo são importantes, vez que a literatura religiosa observa o surgimento da Pombagira, enquanto ser espiritual, na década de 30 do século XX. A bibliografia religiosa apresenta o seu surgimento por meio da figura de uma moça, filha de família nordestina, que questionou o poder patriarcal. Da sua história surge Maria Molambo, pombagira, que junto de Maria Padillha, vai comandar e arregimentar as Pombagiras, espíritos de mulheres. O drama da Pombagira é a condição da mulher e sua principal função é trabalhar para e pelas mulheres. Às vezes se apresenta de forma caricata, trabalhando para ter o homem sob o seu poder, seja material ou sexual.

Para Reginaldo Prandi, a Pombagira representa a possibilidade de alcançar aquilo que o cotidiano das pessoas não permite, porque para ela não existem desejos impossíveis ou proibidos. Ela é associada ao mal, porém esse mal não é explicado, estando associado aos poderes sobrenaturais de enfeitiçar e dominar os homens, e nisso está embutido os desejos proibidos das mulheres, ligados à sexualidade reprimida e a desobediência ao poder masculino. O sexo, que na vida cotidiana é tratado como futilidade, como pecado, como algo proibido, na figura da Pombagira é liberado, assumido também como direito feminino, e por isso elas lutam pelo homem, mas também contra a forma instituída de ser propriedade do homem. São referenciadas como a mulher de sete maridos, que conforme Stefania Capone, pode significar não ser de ninguém.

Stefania Capone fala ainda da possibilidade de transformações através das práticas mágicas, representadas por exu . Isso não se pode ignorar. No que se refere à manifestação da Pombagira enquanto entidade espiritual e personagem, ela traz em si discursos de mudanças, ao questionar os papéis instituídos, ao colocar a mulher em condição de igualdade com o homem. Também exerce o papel principal, que é o de mantenedora das mulheres que aprendem a se relacionar com ela, conforme observamos com as nossas entrevistas. Tanto para Fátima, como Rita e Maria Otilia, as Pombagiras são as entidades espirituais que cuidam da parte financeira das suas casas religiosas.

As nossas entrevistadas nos dão também o sentido de que a Pombagira age como uma protetora das mulheres, uma espécie de anjo da guarda, cuidador que é bom e ruim, que pode ajudar, mas que também pode castigar, tornando-se um anjo mal, com atitudes erradas e resultados ruins. Conforme nossas entrevistadas, para que a Pombagira ajude é preciso que ela seja agradada, que ela seja cultivada todos os dias, e que haja uma cumplicidade entre a mulher e a Pombagira, uma consciência do seu papel e poder. No sentido de cotidiano de Michel De Certeau, a pombagira interfere no dia a dia de fadiga e cansaço tão separado da vida da rua, onde moram os desejos. É para lá que ela transporta as mulheres que interagem com ela. A pombagira, no sentido dado por Michel De Certeau, é como uma arte de fazer. Ela pode ser transformadora do cotidiano das mulheres, uma arte de viver.

Portanto, arrancar da mulher a sua Pombagira é arrancar dela a capacidade de se nortear, de se mandar, de possuir poderes. A Pombagira, pela fala das nossas entrevistadas, é a mulher de dentro da mulher, que não pode ser mandada, que não é controlada, que, por isso, representa a desorganização da ordem instituída no mundo dos homens. Por isso, ela precisa ser controlada, extirpada como forma de controle desse corpo marcado biologicamente.

Um comentário:

Anônimo disse...

eu acredito no teu pode e tu mae sabe que não de hoje sabe admiração que tenho por ti atendo meu pedido toma minha luta p ti cuida da minha dor e resolva minha questão eu ñ te peco eu imploro por tua ajuda